16/06/2017 08h56
Num mundo finito sempre haverá males
Por Padre Ezequiel

A finitude comporta em si mesma a possibilidade de carências, de problemas e de choques. O limite carrega em si mesmo a imperfeição, em maior ou menor grau. Por isso, o mal como realidade ou como possibilidade nasce exatamente dessa natureza intrínseca das coisas e do mundo. O mundo foi criado assim.

Podemos até questionar: se Deus sabia que a criação comportaria em si mesma o mal, porque mesmo assim decide criar? É uma pergunta que podemos fazer. Mas o mais importante agora é constatar a existência da finitude.

Esse é o primeiro passo para compreendermos a realidade do mal no mundo. Muitas pessoas atribuem ao demônio ou até mesmo a Deus a existência do mal. Esse não é o caminho para encontrar a explicação do mal. Muitos ainda dizem que Deus permite o mal, quando poderia agir e evitar todo. Se aceitar isso como verdade tenho que perceber que Deus é no mínimo a causa segunda do mal. Ou seja, o mal tem uma primeira causa, mas como Deus poderia evitar e não o faz, deve ser a causa segunda. E pensar assim é um absurdo.

Olhando a constituição do mundo em sua finitude e limite, verei que na própria finitude está a raiz dos males. Pelo menos ali está a condição de possibilidade para que o mal aconteça. Pense comigo no ser humano. Ele é finito.

Pode sofrer o mal. Posso pensar que a finitude não é já a presença do mal. Ela é condição de possibilidade para o mal. Um ser humano é finito e pode viver bem por muito tempo ou pela maior parte de sua vida. Se entrar uma doença é porque os vírus ou bactérias nos atingem e produzem mal. Se fôssemos perfeitos isso não seria possível. Se fôssemos infinitos ou ilimitados isso não seria possível.

Ainda, se em toda a vida nenhum mal atingir o ser humano, haverá um momento que sua força natural se esgotará e virá a morte. A morte é o mal intransponível. Atinge a todos. O limite levado a suas últimas consequências traz consigo a morte. Mesmo que Deus queira não podia nos manter vivos eternamente nesse mundo. Tudo o que existe nesse mundo, morrera um dia. Por isso, que a eternidade se dará em outra dimensão e não nessa vida. Aqui, mais uma vez entra a associação de ideias.

Unimos finitude, isto é, vida nesse mundo, com eternidade. Essa união só é possível na ideia. Na realidade é um absurdo, algo impossível. Por isso, que Deus também não consegue ou não pode dar conta dos absurdos que pensamos.


O limite e a finitude presente na realidade é a condição de possibilidade para que a realidade comporte o mal. Na vida a finitude, cedo ou tarde, trará a morte. Sempre num mundo finito haverá males e problemas. Estranho seria que não houvessem. Isso, só é possível na fantasia de um mundo irreal, construído pelo pensamento.

É o país das maravilhas onde a realidade não é real. Se pensar nos males da natureza acontece o mesmo. Chuvas demais, secas, ventos, furacões, terremotos ou tsunamis só são possíveis porque a natureza é imperfeita. Os choques acontecem porque existe a finitude. Não é porque Deus quis ou permitiu. A criação tem suas próprias leis autônomas e os ajustes e fenômenos acontecem movidos por essas mesmas leis.

E na natureza desses processos pode acontecer o mal que atinge a própria natureza e as pessoas. 
Claro que temos a ideia que o mundo saiu perfeito das mãos de Deus e depois o homem com seu pecado estragou. Mas essa não é uma ideia completa. O mundo é assim desde o princípio. Limitado e finito. O autor bíblico tenta responder adequadamente a questão do mal, mas não consegue.

Seu objetivo primeiro é outro. O dogma fundamental da narração da criação é que Deus criou. A Bíblia não quer explicar o mal. Ela quer assegurar que o princípio de toda a criação é Deus. Os outros desdobramentos não são fundamentais. Se Deus criou o mundo está sustentado por ele. O mal não se põe superior ao poder de Deus. 

 



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