06/07/2017 11h22 - Atualizado em 06/07/2017 14h27
Se Deus só sabe amar, como pode ser violento, castigar e até matar?
Por Padre Ezequiel

Precisamos admitir que as imagens de Deus que existem na Bíblia são contraditórias. No Antigo Testamento, especialmente, há inúmeras passagens bíblicas onde Deus se mostra vingativo e violento, chegando a matar povos inteiros. Essa noção não pode mais ser contestada. Temos autores sérios de teologia bíblica que afirmam que não podemos mais passar por cima destes trechos ou negá-los para defender a imagem de Deus como amor.

Se o Deus da Bíblia é contraditório é porque o ser humano é contraditório. Se Deus aparece como violento é porque temos aí autores que assim compreendiam.  O autor bíblico compreendia que Deus estava ao lado do povo fiel e matava os inimigos. Essa compreensão, naturalmente, evoluiu.

O fundamentalismo bíblico ainda pode sustentá-la. Mas nenhuma teologia séria sustenta a verdade das afirmações, uma vez que não passam de interpretações do autor bíblico. Ele mesmo interpretava os fatos e colocava Deus do lado dos justos, do povo fiel. Ocorre que para pensar que Deus está do lado do povo fiel não precisamos defender que ele é autor dos castigos e da morte.

Deus sempre esteve do lado do ser humano, sofrendo a morte dos justos e dos injustos. Se sofresse somente a morte dos justos não seria amor. É característica do amor querer envolver a todos. Deus não está somente do lado dos justos dando-lhe a vitória contra os injustos. Essa ideia não se sustenta na imagem do Deus puro amor.

A história dos povos traz milhares de conflitos em nome da fé. Conflitos entrincheirados por questões religiosas. A religião nunca foi isenta de conflitos. E mesmo na Bíblia, cada conflito tem sua interpretação, apresentando Deus como autor da morte, da vingança e da vitória. Mas é já mais do que certo que a Bíblia não é um ditado divino, mas que os autores vão fazendo suas interpretações dos acontecimentos, tentando captar a ação de Deus.

Essa compreensão naturalmente evolui. Eles tentaram mostrar onde Deus agiu, como agiu e porquê. Mas na interpretação não há pretensão de infalibilidade. A partir de Jesus temos uma palavra mais segura sobre o agir de Deus.

Claro que se pode buscar argumentos para justificar as interpretações dos autores bíblicos. Mas, provavelmente, esse não é o melhor caminho. As passagens que mostram um Deus violento e castigador só se purificam a partir da imagem de Deus amor. E é nessa imagem que devemos permanecer. Nós precisamos submeter os textos a racionalidade, a interpretação moderna e a atualizações a partir da mensagem de Jesus. 

Para mim não há problema nenhum ao ler a bíblia, perceber essas contradições e já repensá-las a partir da imagem que Jesus me mostra de Deus. Ao lê-las e ao perceber afirmações sobre o Deus violento, já sei que a palavra definitiva em Jesus não me deixa permanecer nessa ideia. Preciso olhar Deus a partir do amor, que morre e não que mata.

Por isso, a interpretação da Bíblia também precisa ser atualizada com coerência. Não há como suportar as infinitas contradições e considerar tudo verdadeiro, só porque veio da Bíblia. O sentido profundo dos textos deve ser submetido a imagem de Deus a partir de Jesus.  



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