04/04/2018 11h52 - Atualizado em 04/04/2018 13h40
Raça de Víboras
Raça de Víboras
Vozes incaláveis são ouvidas a todo instante: Graças a Deus, graças a Deus!
Em microfones abertos e nas sagradas tribunas, proclamam testemunhos de milagres, divinas inspirações, realizações vultosas e invejáveis.
Atribuem a Deus suas conquistas em autofalantes, mas nos seus corações se gabam infinitamente. Alimentam a vaidade. Deixam com água na boca aqueles que muito sonham, mais não realizam.
A autossuficiência pode ser velada quando a satisfação de se ter realizado os feitos, pelos seus próprios méritos, chega ao ápice do egocentrismo e para disfarçar, ou não ser tachado de arrogante, se lembram do ser divino que um dia foram ensinados a venerar e dar a honra, caso contrário suas reles almas serão, sem piedade lançadas num lago de labaredas flamejantes. Fogo e enxofre.
Para não fritar no mármore do inferno intentam driblar a onisciência divinal, como se assim pudessem.
Mentirosos. Poços de hipocrisia.
Melhor fosse se ficassem em silêncio e dobrassem os seus corações gratos, sem alarde. Se com um sorriso e bondade nos gestos retribuíssem o que receberam. Porém, não querem o silêncio, querem o alvoroço dos aplausos e os afáveis e reconfortantes tapinhas nas costas.
São só barulho de latas vazias. Ocos. Se acham mais merecedores de benesses cósmicas do que os outros meros mortais, como se o destino sorrisse para eles com lábios doces e, carrancudo, fechasse a cara para os outros.
Nada há de errado aproveitar do fruto do seu trabalho, empenho e esforço. Nada há de errado usufruir da sorte ou do fruto do acaso. Errado é a falsa modéstia deslavada.
A gratidão está longe. Gratidão nem a Deus e nem a ninguém.
Tratam seus próprios feitos como grandes milagres.
Os grandes e os pequenos milagres acontecem, sem dúvida. O arrependimento é o maior desses milagres (e talvez o mais cristãos dos sentimentos). O arrependimento está nos corações de quem enxergou que não existe motivo nenhum para se gabar, nos corações de quem reconhece, humildemente, que vislumbrou o sucesso de uma forma equivocada.
A gratidão e a generosidade estão próximas, faz o em quem é bom. Quem usa disso como artifício para autopromoção merece, sem pena, castigo.
Errar é humano, permanecer no erro é cruel, desumano.
Vós de negro e fingido coração, olhai para dentro de si. Abandonai o jargão. Palavras, mera palavras. Vãs repetições. Sejam gratos sem dizer.


Comentários: