Kaio Humberto - 04/01/2017 08h41
Hartung fora do PMDB
Destino deve ser o PSDB
O governador Paulo Hartung vai mesmo sair do PMDB. A sua desfiliação da legenda, onde está desde 2005, deve ser oficializada ainda no mês de janeiro. Segundo informações vindas do alto escalão do Palácio Anchieta, o passo seguinte de Hartung será, muito provavelmente, o retorno a um antigo teto, onde realmente se sente em casa do ponto de vista ideológico: o PSDB, partido que ele ajudou a erguer no Estado e no qual permaneceu do fim dos anos 1980 até 1999.
 
Assim que formalizar a decisão de deixar as fileiras do partido de Michel Temer, Hartung estará confirmando, em caráter oficial, o seu desligamento de um partido no qual, a bem da verdade, nunca esteve ideologicamente ligado. Não é de hoje que Hartung vem dando sinais de desconforto dentro do PMDB e de sua vontade de bater asas. Em 2005, no limite do prazo para concorrer à reeleição no ano seguinte, migrou do PSB para o PMDB por questões conjunturais. Em meados de 2010, perto de encerrar seu segundo governo, foi questionado se pensava em mudar de novo de sigla. “Não posso”, foi a sua resposta, em alusão às amarras eleitorais de então.
 
Nos últimos tempos, a interlocutores próximos, Hartung vinha confidenciando: sentia-se muito pouco à vontade no PMDB – verdadeiro “centrão” da política brasileira, capaz de abrigar líderes regionais dos mais diversos estilos e pensamentos políticos. Em conversa com a coluna, chegou a definir o partido como uma “confederação de interesses regionais”. Dizia a colaboradores que, se resignava-se a continuar na sigla, era somente por um motivo: ali ninguém o incomodava, deixavam-no tocar a política à sua maneira no Espírito Santo.
 
Ao seu estilo, Hartung já vinha ministrando a conta-gotas uma série de sinais que apontavam para a decisão a ser confirmada em breve. Questionado sobre isso no último dia 27, no balanço de 2016, desconversou: “Eu não sei o que fazer com isso, não”. No dia seguinte, em entrevista à CBN, insistimos com PH no tema. De forma até inesperada, ele não só foi pela primeira vez assertivo sobre a vontade de sair do PMDB como soltou praticamente todas as peças do quebra-cabeça sobre seu provável destino:
 
“Quero ir para outro partido? Quero. Quero ir para um partido que tenha a ver com o meu pensamento político e ideológico. Comecei a militar olhando o socialismo como uma porta de entrada da emancipação humana. Evoluí para uma posição de centro-esquerda, de social-democrata. É aí que eu tô. Vou procurar um partido que tenha conexão com o que penso e sonho para o país, com as ideias que consolidei na minha trajetória política, onde fui aprendendo coisas e superando ideias que tinha originalmente.”
 
De fato, PH começou a trajetória política militando, clandestinamente, no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Isso no fim dos anos 1970, início do processo lento e gradual de redemocratização do país. Após exercer dois mandatos de deputado estadual pelo PMDB ao longo dos anos 1980, foi ajudar a fundar o PSDB, junto com peemedebistas históricos. Como tucano, elegeu-se deputado federal e prefeito de Vitória, em 1992. Após a perda da convenção de 1998 e o rompimento com José Ignácio, elegeu-se senador no mesmo ano, ainda pelo PSDB, mas logo passou para o PPS (1999), em seguida para o PSB (2001), até ancorar no PMDB (2005).
 
A verdade, porém, é que nunca deixou de pensar e agir como um tucano em pele de peemedebista. Desde que voltou ao Palácio, parece vir se reconciliando a cada dia com essa identidade e com os eixos programáticos do PSDB: em síntese extrema, priorizar o desenvolvimento social, sem deixar de zelar pelo controle fiscal e sem repudiar o mercado e a iniciativa privada – antes, abraçando-os. Mais ou menos uma síntese do PH político e gestor, na sua atual versão. Natural, assim, seu retorno ao ninho, ao menos sob a ótica ideológica.
 
Quanto à ótica eleitoral, aí é outra história. E é assunto para outra coluna.
 
Roteiro da reviravolta
 
Na última sexta-feira, o grupo de 12 vereadores eleitos pela coligação de Sérgio Vidigal fechou a chapa para a Mesa Diretora da Câmara da Serra, no QG do grupo: o sítio da família de Nacib (PDT), em Paraju. Por maioria, ficou definido internamente que o presidente seria o veterano Basílio da Saúde (PROS), restando a Neidia (PSD) o posto de 1ª secretária. Ela engoliu em seco e foi do sítio para a Câmara. Isso na sexta à tarde. A informação vazou para o outro lado, segundo relato de Miguel da Policlínica (PTC), fiel articulador de Audifax.
 
A proposta: vem pra cá
 
Miguel conta que, sem perder tempo, fez contato com Neidia e encontrou-se pessoalmente com ela, no gabinete da presidência, levando a proposta direta: se quiseres, a presidência em nossa chapa é toda tua. Topas? Ela topou no ato. No fim da tarde de sábado, Audifax recebeu o relatório e, óbvio, deu seu aval à solução que lhe soava mais do que favorável. Intimamente, deve até ter pensado: “Estou vivo! Mais vivo do que nunca!”
 
Já estava escrito
 
Quando os dois grupos chegaram para inscrever as respectivas chapas no protocolo da Câmara, minutos antes da sessão no domingo, o pacote de surpresas já estava lacrado. Alguém duvida? Um aliado de Audifax contou à coluna que, assim que ele chegou à Câmara no início da sessão, o próprio prefeito lhe confidenciou: “Aguarde, teremos surpresas”.
 
Novos dissidentes
 
Segundo Miguel, a chapa situacionista já foi procurada por vereadores antes posicionados do outro lado. Ele cita Wellington Alemão (DEM), Aécio Leite (PT), Adilson de Novo Porto de Canoa (PSL), Cleusa Paixão (PMN) e Raposão (PSDB).


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