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Liberdade é coisa perigosa


José Caldas da Costa

José Caldas da Costa

José Caldas da Costa é jornalista e escritor forjado na observação dos fatos e do mundo ao seu redor, desde a infância nas ruas de pedra e montanhas do Alegre, no Caparaó.Prêmio Vladimir Herzog 2007 - Caparaó, a primeira guerrilha contra a ditadura

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  09.julho.2018

Juro, já pensei muitas vezes em escolher outro País para viver. Mas já pensei, uma vez a mais que todas, em ficar. E o domingo é uma das razões para isso. Gosto de montar a bicicleta, traçar um destino e chegar até o final.

A cada domingo, desafio-me a um percurso novo. Sozinho, por enquanto. Até encontrar uma turma boa para gozar essa adorável sensação de liberdade. A região metropolitana tem paisagens maravilhosas, que me ajudam a ficar. Gente bonita de todos os tons étnicos.

Costumo pedalar a partir de minha casa, na Praia da Costa, em Vila Velha, rumo ao Sul. Sonho com o dia em que terei alguém por companhia para pedalarmos até Guarapari, tomar um bom shake em algum espaço inadvertidamente aberto no domingo, e retornar.

Coisa de gente doida e libertina mesmo. A sensação é maravilhosa. Já consigo ir até o meio do caminho.

Neste fim de semana, com um sol de inverno delicioso, tomei o rumo Norte, percorrendo a insalubre Rodovia Lindenberg, driblando a insegurança da travessia de Cobi ao escolher, como quase todos os ciclistas, a avenida Ernesto Canal, em Alvorada, atravessar a linha em São Torquato e ganhar Vitória pelas Cinco Pontes.

Aos domingos, Vitória reserva, da Ilha do Príncipe ao final de Camburi , uma faixa de rolamento só para nós, sobre duas rodas, movidos a energia corporal.

Passei pelo porto, fiz self com o Palácio Anchieta ao fundo, coloquei o dedo em cima do Penedo numa pose na Beira-Mar, rompi toda avenida até a Praça do Papa, tomada por crianças, jovens e adultos, dividindo o espaço democrático da praça para contemplar, de um ângulo ímpar, as águas tranquilas da baía de Vitória e, do outro lado, Vila Velha, com seus quarteis militares, o Monte do Moreno e o convento.

O netinho pede ao avô para comprar algo, que o avô disfarça que não há. A mãe gestante faz pose sobre as pedras marroadas da beira mar, com a barriga de sete meses à mostra, e enquadra na self o marido ao fundo e outro filho entre eles. O Projeto Tamar, a pequena praia de areia que poucos utilizam, o deck que todos gostam de usar. No meio da praça, toca uma música cubana em um desses aparelhos amplificadores e casais - velhos, adultos e jovens - se põem a dançar um ritmo que me parece rumba.

A terceira ponte dali contemplada harmoniza o moderno, o antigo e o natural. Dá vontade de ficar. Busco na câmara do celular os melhores ângulos para registrar a paisagem linda que se configura. De repente, algo se interpõe entre minha objetiva e meu objetivo. Ergue-se, monumentalmente, em ângulos retos a roubar a visão que se poderia ter em 180 graus. Juro, volta aquela estranha vontade de partir. E eu parto a contornar aquela coisa cinzenta e cara que atrapalha a paisagem.

Não sei porque, mas de tão grande fez-me lembrar uma tumba quadrada daquelas que sempre vejo no cemitério velho do Alegre. E, sem que eu saiba porque, associo a grande coisa cinza e cara às pirâmides do Egito, tão grandes quanto o ego de seus criadores, tumbas dos faraós.



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