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Lua de sangue


José Caldas da Costa

José Caldas da Costa

José Caldas da Costa é jornalista e escritor forjado na observação dos fatos e do mundo ao seu redor, desde a infância nas ruas de pedra e montanhas do Alegre, no Caparaó.Prêmio Vladimir Herzog 2007 - Caparaó, a primeira guerrilha contra a ditadura

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  28.julho.2018

Marte chegou primeiro brilhando acima da linha do horizonte, enquanto as pessoas ainda chegavam para usufruir daquele momento nas areias da Praia da Costa, em Vila Velha. Ninguém queria perder o “maior eclipse do século”, segundo divulgou a mídia.

É incrível o fascínio despertado pela lua. Talvez seja o mais antigo fascínio humano. Diz a lenda amazônica que foi por querer beijar o reflexo da lua no grande rio que a índia Naiá se transformou na vitória-régia.

Quando visitei a Amazônia, pela primeira e única vez, aos 26 anos, fiz um passeio num pequeno barco até os igarapés e quis ver a vitória-régia. É muito maior do que se possa imaginar a partir das gravuras dos livros didáticos.

A lua é dos namorados, dos desiludidos, dos poetas e dos apaixonados. Diz a lenda que Naiá quis beijar a lua porque ela seria Jaci, o índio que namorava as mais belas índias amazônicas e por quem ela se apaixonara.

No final de tarde e início de noite de sexta-feira, a lua demorou a aparecer. Ela “nasceu” sob eclipse e, de repente, começou a mostrar-se avermelhada, a pelo menos 30 graus da linha do mar. A cor foi tornando-se mais intensa até que sua superfície começou a ser tomada, a partir da base, pela luz do sol e em menos de uma hora ele já brilhava no alto do céu, refletindo e iluminando a noite.

O eclipse lunar raro, com o planeta marte ali “pertinho”, atraiu muita gente à orla. O mar é fascinante, com sua força e seu poder. Eu cheguei cedo, depois de uma hora pedalando desde Vitória (desculpem, estou a cada dia mais apaixonado pela minha bike e pelos benefícios que ela tem me proporcionado).

A linha do horizonte estava avermelhada e soprava uma brisa fria. Não sei explicar direito, mas muito rapidamente o tom avermelhado deu lugar a um tom azulado para cinza e a brisa fria se tornou morna, como é o normal.

É comum que pela manhã sopre uma brisa fresca na beira do mar e à noite essa brisa seja de um morno agradável, porque a superfície das águas demora mais a trocar energia com o sol, tanto absorvê-la quanto liberá-la ao fim do dia.

Para o pessoal de cidades cortadas por grandes rios (como Colatina e Cachoeiro, mais aquela do que esta), isso explica porque faz calor até nove ou dez horas da noite, enquanto pela manhã, mesmo depois que o sol nasce, ainda faz aquele arzinho frio. Diria que as duas cidades são saunas a vapor.

Voltando ao eclipse lunar, foi um pouco frustrante ao vivo. A televisão amplia a imagem e, para piorar, os administradores se esqueceram de um fator importante: apagar os refletores da praia para facilitar a visualização.

De toda forma, o eclipse foi um bom pretexto para as famílias se reunirem, novos amigos serem feitos (eu mesmo fiquei mais de uma hora conversando com duas senhoras que estavam perto de mim, simpáticas e agradáveis), e por pelo menos quase uma hora todo mundo deixasse as preocupações de lado e se unisse em um só pensamento e foco.

Fazia tempo que não se via tanta gente olhando na mesma direção.

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