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O manifesto do terreiro


Leandro Chades Bettecher

Leandro Chades Bettecher

Leandro Chades Bettecher é cantor, violonista, poeta, romancista, jornalista e compositor. Formado em Letras Literatura e um dos lideres da banda Maloca dos Braga.

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  21.abril.2021

Há mais de quinhentos anos, nós, povos de terreiro, detentores dos saberes ancestrais, guardiões da cultura que foi trazida ao solo brasileiro em navios negreiros, padecemos sob a catequização obrigatória de nossa gente. Nas senzalas, nos obrigaram a “beijar as pedras pra alcançar nossos santos” e, mesmo depois de libertos, a casa-grande ainda teimava em demonizar o branco das nossas vestes.

Mas, saibam que nossos pés descalços nos terreiros foram para vocês, por vezes, a união entre os céus e a terra. Nossas mãos calejadas, as responsáveis por promover a cura com as ervas que cultivávamos para nossos ebós. No entanto, sua capacidade de acreditar que deus é um privilégio branco e de classe média massacrou a nossa cultura. A colocou dentro de barracões escondidos.

Suas acusações, quando gritou aos quatro ventos que servíamos ao diabo, que meu Exu era demônio, responsável por acabar com vida das pessoas, calaram a minha cultura. Sua falta de respeito, quando espalhou, durante as quatro estações, que a dama que me acompanha, pombogira formosa, era uma mulher devassa, que acaba com casamentos, envergonharam a minha cultura. Vocês empurram seu deus como uma pílula europeia amarga e meu povo teve que engolir. Quinhentos anos se passaram e vocês ainda querem me calar?

Não vão me calar, não. Porque nossa voz ecoa as vozes dos nossos orixás, lá do Orum. Porque nossa voz ecoa as vozes dos nossos ancestrais, dos nossos encantados, dos nossos pretos velhos e pretas velhas, dos nossos caboclos e caboclas, dos nossos boiadeiros, dos nossos malandros e pombogiras, de todas as falanges de Aruanda. E nossa voz hoje, é o argumento contrário a mais esta tentativa de nos catequizar, sob pretextos mais questionáveis e levianos possíveis.

Este verdadeiro ato de agressão não só à nossa e às demais religiões não-cristãs, mas, do ponto de vista legal, à própria Constituição Brasileira, que nos garante vivermos sob um Estado Laico, gera dentre outras consequências lastimáveis, sensações de constrangimento em alunos – crianças e adolescentes – impedidos de manifestar suas crenças no Candomblé ou na Umbanda nas escolas, por temerem toda a sorte de preconceitos de seus colegas de turma ou, pior, de professores, pedagogos e demais profissionais docentes.

Enfim, nós, povos de terreiro, repudiamos veementemente esta catequização obrigatória de nossa gente. Não porque queiramos reivindicar algum lugar nos ambientes escolares, cantando, por exemplo, “Deu meia-noite/ A lua se escondeu/ Lá na encruzilhada/ Dando a sua gargalhada/ Pombogira apareceu” no início das aulas. Queremos, mais que tudo, que as escolas sejam espaços em que os alunos tenham a oportunidade de aprender a respeitar a pluralidade e a singularidade da fé de cada cidadão e cidadã desta cidade, deste estado, deste país.

Crônica de Thatiane Cardoso

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