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Exercícios desta terra


Pedro Paulo Biccas

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Pedro Paulo Biccas Júnior é ativista político e jornalista

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  07.outubro.2019

Primavera chegou. Eu também. Fazia um tempinho já que não vinha a Cachoeiro de Itapemirim. Visitar meu pai, no entanto, é algo que não deixo de fazer por muito tempo.

Logo de chegada, encontro meu irmão revolvendo a terra que separou para compostagem no terreno recém arado do quintal de casa. Lançando mão de uma pá, fui ajuda-lo.

Experiências simples do cotidiano nos dão, invariavelmente, lições importantes de vida, sobretudo quando estamos diretamente conectados a terra e natureza.

Remexendo a terra encontrava matéria orgânica que outrora ali fora depositada, para que a decomposição se tornasse adubo próprio para a terra. Alguns troncos, outras folhas e no meio dos dejetos uma materialização do pretérito.

Aqueles materiais enterrados e cobertos com lona representavam tudo aquilo que, com o tempo, passou. Passou mas não desapareceu. Estava ali, separado, com um fim. Aqueles materiais, ainda que indesejáveis para as usualidades cotidianas seriam, após o processo, uteis para revigorar e fortalecer o solo.

Experiências de vida com encerramentos de ciclos são dolorosas, duras e demoram mesmo um certo tempo até serem digeridas e tornarem-se lembranças pedagógicas e não amargas para a alma.

Com o sol escaldante que temos no pequeno Cachoeiro, recrudescemos nosso solo e nosso peito de maneira que formamos uma capa tão rígida que mesmo eventuais chuvas e benção não são completamente absorvidas e aproveitadas como poderiam, ou deveriam.

É mais cômodo. De fato. Até concordo. Porém é de uma paridade tão vilania. Ou como diriam os mineiros: é de dar dó. Você rega, exerce suas obrigações ordinárias com a jocosa sensação de dever cumprido.

Aparecem então, as mazelas da vida. Folhas e faces ressentidas e ressequidas aparecem agora destoando do cenário comum e, destoando do normal, denunciam que algo não vai bem. A existência maior do contexto põe-se contra nossa micro existência neste universo: ou sara, ou some.

Sarar é um exercício nem sempre simples, ou agradável. Da mesma forma que arar não é tão somente revolver a terra para descompactar o solo. É expor o subsolo ao sol. É trazer a luz aquilo que estava guardado a tanto tempo que o normal era fingir que nem existia mais.

Tocar o húmus da terra é perceber a humildade da existência humana, finita e limitada. A existência que necessita de reparos constantes para seguir como feixe de vida.

Existem agruras, como fungos e mágoas, que somente a luz e o calor bastam para (s)arar. Expor este subsolo, libera espaço, aquilo que te fazia sentir apertaaaado dentro de si mesmo. Com isso, as raízes respiram, encontram espaço para crescer, é quase como viajar muito tempo em um voo comercial e depois conseguir esticar as pernas.

Crescer impõe desenvolver, esticar. O processo é contínuo, perene. Cada momento de estagnação e a seca nos resseca e adoece de novo. Quantas vezes nesse processo é preciso jogar frutos intrusos ou raízes podres fora? Vai ser triste, por vezes até sorumbático e tão soturno que pode-se chegar ao passo de cogitar uma poda.

O serviço está feito. É o corpo que se cansa para a alma descansar. Toda existência enquanto vida está relacionada a energia em movimento. A saúde do solo, do corpo e da mente, carece de movimentos intercalados e correlacionados para suar, arar e pensar. É preciso aproveitar aqui enquanto ainda não passamos pra lá. É tempo de (s)arar.

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