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Cinco anos sem a "estrela solitária"


Társis Dellano

Társis Dellano

Estudante de Direito, palestrante, apreciador de música popular brasileira e literatura, comunicador especializado em ouvidoria e atendimento ao público

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  17.maio.2021

Dono de uma voz potente e timbre único, Cauby Peixoto falecia há exatos cinco anos. O rei da era do rádio recebeu de sua mãe o nome peculiar. Apesar de bandonilista profissional, Dona Alice também era apreciadora de literatura brasileira, e por isso deu aos seis filhos nomes de personagens do romance “Iracema”, de José de Alencar.

Apesar da família inteira ser do ramo musical, os pais de Cauby não queriam que ele seguisse o mesmo caminho, e o incentivavam a estudar bastante para ser um advogado ou médico, menos artista. Fracassado o objetivo, o garoto começou a cantar em 1949, gravou o primeiro disco em 1951, fez sucesso em 1955 com o LP “Blue Gardenia” e “explodiu” nas rádios em 1956 com a gravação da música “Conceição”, canção composta pelo capixaba Jair Amorim e rejeitada por Orlando Silva e Silvio Caldas.

Cauby faleceu no dia 15 de maio de 2016 em decorrência de uma complicação causada por um quadro de pneumonia. Tinha 85 anos de idade, 65 anos de carreira e cerca de 147 discos gravados em mais de 05 idiomas.

ROCK E CINEMA

Apesar de ser lembrado pelo estilo dramático em suas interpretações, Cauby foi o primeiro brasileiro a gravar um Rock em português. “Rock n' Roll em Copacabana” foi uma verdadeira revolução musical em 1957.

Não se restringindo apenas a música, Cauby fez participações em quatorze filmes, inclusive em “Jamboree” com Jerry Lewis, e em “Chico Fumaça” com Mazzaropi.

ESTADOS UNIDOS À VISTA

Cauby também tentou uma carreira internacional em duas ocasiões na década de cinquenta. Sem muitos recursos, foi pela primeira vez aos Estados Unidos em 1955 através de um cruzeiro religioso onde atravessou as américas cantando músicas católicas. Com a gravação de “I Go”, versão inglesa do clássico “Maracangalha”, de Dorival Caymmi, Cauby alcançou a posição de quinto cantor mais tocado na mídia estadunidense. Nesse mesmo ano foi capa da revista Time e chamado de o “Elvis Presley brasileiro”. Lá o intérprete teve grandes oportunidades, tais como: cantar com Frank Sinatra, Carmen Miranda e Nat King Cole, ídolos e nomes imortais da música mundial.

CAUBY! CAUBY!

No ano de 1980, após um ostracismo de cerca de quinze anos causado pela ascensão da Jovem Guarda, Bossa Nova e Tropicália, artistas como Tom Jobim, Roberto e Erasmo Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Joanna e Jorge Benjor compuseram músicas inéditas para que Cauby gravasse um novo disco. A obra foi intitulada de “Cauby! Cauby!”, nome da música-homenagem composta por Caetano. O disco lançado pela Som Livre é considerado o principal acervo musical da MPB, além de ter sido o grande responsável pela volta triunfal de Cauby ao mundo da fama.

SURGE O PRIMEIRO POPSTAR BRASILEIRO

Antes mesmo do lançamento do seu hino oficial “Conceição”, no ano de 1954 Cauby foi eleito como o homem mais bonito do mundo pela revista norte-americana “Life”. Em 1957 voltaria a ser manchete como o mais bonito dentre os artistas nacionais. Fato é que a partir daí ele já não conseguia mais andar pelas ruas sem correr o risco de ter a roupa rasgada pelas suas fãs, como de fato já ocorreu por diversas vezes.

A Rádio Nacional onde Cauby se apresentava semanalmente, teve que reforçar a segurança e colocar uma barreira de vidro que separava o público do artista, pois a euforia das meninas era tão grande que estava atrapalhando as transmissões. Por mais inacreditável que seja, não estou mentindo ao afirmar que muitas dessas garotas (hoje idosas) nunca subiram ao altar esperando por Cauby.

GRAMMY LATINO

O álbum “Eternamente Cauby Peixoto – 55 Anos de Carreira” foi o grande vencedor do Grammy Latino na categoria melhor álbum de música romântica. Nesse CD e DVD de 2006, Cauby trouxe grandes canções, tais como: “Garota de Ipanema”, “Flor de Lis”, “Primavera”, “Emoções” e o fenômeno francês “Ne Me Quitte Pas”. Fez dueto com Alcione em “Você me Vira a Cabeça” e “A Pérola e o Rubi”. Com Agnaldo Timóteo cantou “A Noiva” e recebeu o título de cidadão Paulistano, conferido e aprovado por unanimidade pela Câmara de Vereadores de São Paulo.

ANGELA E CAUBY

Amigos desde a década de cinquenta, pode-se dizer que a dupla teve o seu início quando Cauby convidou Angela para fazer uma temporada na sua boate do Rio de Janeiro. No momento em que Angela começou a cantar “Samba em Prelúdio”, Cauby foi ao palco e cantou com ela. Depois disso os dois sempre apresentavam juntos, mas foi só em 1982 que lançaram o primeiro disco em dupla, posteriormente nos anos de 1992 e 2012.

Inclusive quando Cauby faleceu em 2016, eles estavam fazendo uma turnê pelo Brasil. Os ingressos se esgotavam rapidamente e as casas de shows estavam sempre lotadas, tanto que para honrar esse compromisso, Angela optou por concluir a turnê com a cantora Vânia Bastos.

80 ANOS DE IDADE E 60 DE CARREIRA

Em comemoração aos seus oitenta anos de idade e sessenta de carreira, em 2011 Cauby lançou o box “O Mito”, esse composto por três CDs: “A Voz do Violão”, destacando a sua potência vocal e a qualidade musical do maestro e amigo Ronaldo Rayol; “60 Anos de Carreira – Ao Vivo” onde Cauby relembra os seus maiores sucessos e divide o palco com Angela Maria, Agnaldo Rayol, Emílio Santiago, Fafá de Belém, Vânia Bastos e Agnaldo Timóteo. Em “Caubeatles”, o nosso artista passeia com inglês fluente sobre os maiores sucessos da banda britânica.

CAUBY CANTA DICK FARNEY

Em meados de março de 2016 Cauby começou a gravar músicas de seu ídolo Dick Farney para a elaboração de um novo disco. No entanto, ele faleceu no dia 15 de maio e por isso não viu o resultado desse trabalho que só foi lançado em 14 de julho de 2017, tornando-se um álbum inédito póstumo.

Nesta obra o cantor barítono de voz grave e potente, encontra-se com um tom mais contido, arranjos menos performáticos e leves resquícios de cansaço. Porém, apesar de muitas vezes ficar notória a ausência de características fundamentais de Cauby, a voz dele está mais aveludada do que nunca e honra toda a sua carreira musical.

PRÊMIO DA MÚSICA BRASILEIRA

No dia 23 de outubro de 2016, mesmo depois de falecido, Cauby foi o grande vencedor do Prêmio da Música Brasileira na categoria “Melhor Álbum de Música Estrangeira”. O disco premiado foi o clássico “Cauby Sings Nat King Cole” (2015), que o artista abrilhantou exibindo de capa uma foto dele com o astro norte-americano. O evento de premiação foi emocionante, por um momento parecia que o nosso Cauby estava mais vivo do que nunca.

O MITO

Cauby Peixoto deixou um legado irretocável ao Brasil, e o apelido de “Professor” confirma isso. Não é possível pensar em Cauby e lembrar apenas de um estilo ou um mero padrão, pois a versatilidade do nosso artista era o que sustentava seu timbre camaleônico.

Apesar do tamanho sucesso, Cauby é o que conhecemos por “estrela solitária”. Afinal, foi uma das figuras públicas mais discretas do meio artístico. No entanto, nos palcos se tornava muito mais do que um Prince. Sim, lá o cantor tinha presença expressiva, vestia roupas brilhantes, cores fortes e joias cravejadas. Em outros poderia até parecer cafonice, mas em Cauby exalava glamour, como ele mesmo dizia: “Se não tiver brilho não tem Cauby Peixoto”.

Recebeu em 2011 do Conselho Deliberativo Internacional de Honrarias do Grammy Latino a Comenda de Honra ao Mérito, sendo o primeiro artista em todo o mundo a receber esse prêmio.

Em 2016, despedimos de um dos poucos filhos legítimos da era do rádio brasileiro (era de ouro) e sem exagero do mais eclético, crítico e perfeccionista cantor da história da MPB. Cauby deixou saudades pela serenidade, humildade e sobretudo pelo seu talento inigualável. Certamente o show dele nunca terá fim, enquanto houver um só romântico respirando vida, haverá um barítono grave cantando: “Conceição eu me lembro muito bem...”.

Cauby não era uma estrela, como de costume chamamos os artistas, mas um cometa daqueles que só passam de mil em mil anos.

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