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“EU NÃO TENHO CULPA”


Társis Dellano

Társis Dellano

Estudante de Direito, palestrante, apreciador de música popular brasileira e literatura, comunicador especializado em ouvidoria e atendimento ao público

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  29.junho.2021

Era uma manhã de segunda-feira como qualquer outra. Após o café, peguei o celular e me deparei com uma notícia que eu não queria ter tido ciência. Entretanto, é indiscutível que merecia mais destaque nas colunas nacionais de Cultura.

Por força do momento, o noticiário está como verdadeiro plantonista da CPI da Covid, do caso Lázaro, demissão do Faustão e da sangrenta corrupção brasileira. Esses temas são merecedores de destaque? Claro que sim. No entanto, acredito que a globalização, a diversidade cultural e social são tão fortes, cada qual em sua particularidade, que não compreendem um “apartheid” de editorias e de pertinências temáticas.

Sem rodeios e delongas, por um motivo muito triste tornou-se público o fim da carreira das irmãs Galvão. A coincidência, para não dizer ironia, é que a dupla finalizou a trajetória oficialmente em plena semana de São João, que além de ser a segunda data mais comemorada no Brasil, tem Mary e Marilene como uma de suas principais atrações musicais.

PERCUSSORAS DE UM MOVIMENTO

Embora não tenham sido a primeira dupla sertaneja feminina do Brasil, as irmãs Galvão foram de suma importância para o sucesso de um “movimento” que buscava democratizar o âmbito musical através da inclusão de mulheres. Além do inquestionável talento, a persistência de Mary e Marilene foi essencial para enfrentar estilos predominantemente ocupados por homens.

As cantoras que surgiram a partir da década de sessenta tiveram o bônus de participar de movimentos como a “Tropicália” e a “Bossa Nova”, além de programas como “Corte Rayol Show”, “Jovem Guarda” e “Discoteca do Chacrinha”. Por outro lado, as sertanejas precisaram correr o Brasil inteiro para alcançar os mais variados públicos. Inclusive devido à grande popularidade alcançada são, erroneamente, confundidas como “bregas”.

SIMPLES ASSIM

Talvez seja uma imposição muito forte, ideologicamente falando, quando afirmo que é impossível não sentir o coração abraçado ao ouvir “As Galvão” interpretando grandes clássicos como “Colcha de Retalhos”, “Beijinho Doce”, “Tristeza do Jeca”, “Chalana” e “A Noite do Meu Bem”. Sei lá, mas é como se invadisse uma sensação de brasilidade simples, encantadora e latente em versos entoados.

Sem a mínima pretensão de exalar um tom apelativo, posso afirmar que as irmãs Galvão formaram a única dupla tecnicamente perfeita do Brasil. Se você considerar o repertório, afinação, timbre e sintonia, chegar à conclusão que cheguei não é uma tarefa difícil e talvez exija apenas uma dose de renúncia de predileções emocionais.

A DIFÍCIL E NECESSÁRIA DECISÃO

Em 2018, ao notar que Marilene vinha esquecendo as letras do repertório, Mary não viu com naturalidade e optou por buscar ajuda médica, mas infelizmente o resultado abalaria ambas, Marilene foi diagnosticada com Mal de Alzheimer. Porém, o laudo da irmã mais nova não impediu que a dupla insistisse mais um pouco e tentasse prosseguir com as brilhantes apresentações.

Infelizmente ficamos sabendo na semana passada que após setenta e quatro anos de jornada, sessenta discos gravados, trinta prêmios musicais, disco de ouro e cerca de sete honrarias oficiais, as irmãs Galvão admitiram a impossibilidade de continuar a carreira devido à progressão do quadro de Alzheimer de Marilene.

AS PALAVRAS JÁ ESTÃO ESCASSAS

Ao iniciar esse parágrafo, não tenham dúvidas de que a emoção me atrapalha e as palavras estão escassas. Se você já leu qualquer outro artigo que escrevi, deve ter reparado que tenho o costume de terminar com algo impactante para exaltar os meus homenageados, mas dessa vez não farei isso.

Em 2020, “As Galvão” gravaram a música “Eu Não Tenho Culpa” (Fátima Leão e Mário Campanha), cujo tema é a situação de uma pessoa portadora de Alzheimer. Guardem com muita ternura esses versos cantados por Mary para Marilene.

[...] Você não tem culpa se os seus sonhos se foram

Por outros caminhos

Quem foi, quem será

O seu mundo te faz caminhar tão sozinha

Eu vou te ouvir

Repetidas vezes, a mesma história

Eu vou te abraçar

Como se estivesse te conhecendo agora

Você não tem culpa, mas seu futuro está nos meus planos,

Não precisa entender, mas eu vou te dizer

Por nós duas, eu te amo.

Te amo, te amo”.

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