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Dr. Bacamarte e o “fuzilador de liberdade”


Társis Dellano

Társis Dellano

Estudante de Direito, palestrante, apreciador de música popular brasileira e literatura, comunicador especializado em ouvidoria e atendimento ao público

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  11.setembro.2021

Análise do livro “O Alienista”, clássica obra de Machado de Assis.

O LIVRO

O Dr. Simão Bacamarte é o protagonista dessa história publicada em 1882, e toda a narrativa concerne em sua atuação médica especializada em psiquiatria. Após uma temporada na Europa, o nosso personagem retorna ao Brasil, mais especificamente à Vila de Itaguaí, e vislumbra a necessidade de estudar as pessoas com deficiência mental. Para tanto, inaugura a famosa “Casa Verde”, o primeiro manicômio da Vila.

A princípio o trabalho científico e social estava sendo desenvolvido com responsabilidade. Porém, o Dr. Bacamarte fica tão obcecado que começa a internar alguns cidadãos que possuíam tão somente complexos comportamentais, como por exemplo o Costa, um homem que ficou pobre por emprestar muito dinheiro e não conseguir cobrar dos seus devedores.

Adiante a situação consegue piorar, pois o psiquiatra se torna ainda mais extremista internando quem quer que seja, evidenciando uma satisfação em ver o manicômio cheio.

ANALOGIA

Era a segunda década do novo milênio e lá estavam Társis e os brasileiros “deitados em berço esplêndido”, no mesmo comodismo em que os moradores da Vila de Itaguaí se encontravam antes do retorno do Alienista. Tudo parecia transcorrer nos limites da normalidade, mas só parecia.

Conversando com Társis, o jovem me contou que no Brasil o Dr. Bacamarte está mais vivo e severo do que nunca. Sim, também não compreendi. Todavia, me relatou alguns casos tão preocupantes quanto as indevidas internações da literatura.

Atordoado, começou com a seguinte afirmação: “o Doutor da atualidade se põe na condição de vítima, acusador e julgador, visando aniquilar os seus desafetos por não aceitar que as pessoas discordem dos seus atos”. Contudo, caros leitores, nem o próprio psiquiatra foi tão perverso. Afinal, o personagem de Machado agia convicto de que estava contribuindo para um mundo melhor.

Outros casos que me comoveu, e de certa forma relacionados com o mencionado no parágrafo anterior, foram as prisões da ativista Sara Winter e do jornalista Oswaldo Eustáquio por discordarem e protestarem contra as decisões da Suprema Corte. A ativista foi proibida até de participar do aniversário de cinco anos do seu próprio filho. Enquanto que, durante a detenção, o jornalista relata episódios de torturas e ficou paraplégico. Dentre a prisão preventiva e domiciliar foram cerca de 381 dias de reclusão de ambos.

Infelizmente não parou por aí, e a prisão de um deputado federal não seria tão absurda só pelo fato de ter ignorado o art. 53 da Constituição. A perseguição organizada aos críticos, inovou o ordenamento jurídico brasileiro ao expedir um mandado de prisão para um flagrante delito (um dos vários devaneios do Doutor). Porém, pela lógica um anula o outro, pois o flagrante está ligado à necessidade de ação imediata, não podendo aguardar o mandado.

Mais recentemente, possuído pelo espírito do Dr. Bacamarte, esse que assombra quem ousa pensar contrário, determinou a prisão do ex-deputado federal Roberto Jefferson (Presidente Nacional do PTB). Bem como nos demais casos citados, tais prisões são provenientes de um inquérito inconstitucional. Além disso, a Procuradoria Geral da República se manifestou contra a medida cautelar, mas de nada adiantou. Por outro lado, também deveriam ter sido levados em consideração outros fatores, tais como: o detido possui 68 anos de idade, já teve quatro cânceres, depressão e sofre com as sequelas dos tumores e de uma cirurgia bariátrica. E sabe qual é o crime cometido? Propagação de fake-news. Se alguém achar essa tipificação no Código Penal Brasileiro, me passa que eu volto para desdizer tudo o que constei aqui.

Triste, mas o “fuzilador de liberdades” não achou pouco, e mais nomes como Sérgio Reis (rei da música sertaneja e ex-deputado federal) foi alvo de busca da Polícia Federal e proibido de pisar na Praça dos Três Poderes.

FINALIZANDO

O barbeiro Porfírio, inconformado com os excessos do Alienista, convocou populares e planejou uma manifestação em frente à sua residência. Porém, não contava que o astuto Bacamarte, ao anunciar que não receberia mais dinheiro dos internos, conseguiria convencer os manifestantes que o seu trabalho não era sem causa e nem movido por fins lucrativos.

Cuidado! O Dr. Bacamarte dos nossos dias, para justificar a sangria que ele condenou a nossa liberdade, diz tomar as devidas providências em defesa das instituições e da Democracia. O discurso é lindo, mas a realidade é sombria e perversa. Na ficção, ao caírem nos argumentos do psiquiatra, o resultado foi a internação de 75% da população local com apoio político e policial.

A história de Machado de Assis encontra total respaldo com a nossa realidade. O Alienista acreditava que todo mundo era louco, enquanto o maior de todos os loucos era ele mesmo. O “fuzilador de liberdades” finge acreditar que todos aqueles que discordam da sua canetada de chumbo ameaçam o Estado Democrático de Direito, embora é ele quem mais o degrada.

A lista de perseguidos é grande: ativistas, jornalistas, ruralistas, artistas, políticos e influenciadores. Hoje a caça são os conservadores, amanhã pode surgir um “remake” da novela da Globo, sob a direção do STF, e você ser o escalado para protagonista em “A Próxima Vítima”.

Que o nosso lema deixe de ser “deitado em berço esplêndido” e passe a ser “ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”.

A Folha do ES informa: o colunista e esse jornal não oferecem risco ao Estado Democrático de Direito.

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