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Interferência em protocolo fez cinco médicos deixarem a UTI da Santa Casa

Interferência em protocolo fez cinco médicos deixarem a UTI da Santa Casa

O superintendente e mais dois médicos da direção forçaram saída dos médicos experientes da UTI, comprometendo atendimento e promovendo reação em cadeia de revolta entre os profissionais. O Superintendente padre Evaldo Ferreira (FOTO) é o responsável direto, juntamente com dois assessores.

  Por Jackson Rangel Vieira

  22.maio.2020 às 16:59Atualizado em 26.maio.2020 às 13:11

O pedido de demissão de cinco médicos renomados da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro de Itapemirim-ES pode representar um corte no tempo na Instituição centenária que atende 600 mil pessoas do sul do Estado em várias especialidades.

O meio médico está estarrecido com a situação suspeita em que encontra o hospital. Denúncias de mortes por supostas negligências, expulsões de profissionais, demissões, dívidas e os responsáveis: o triunvirato Padre Evaldo, superintendente; diretor clínico, Thiago Nora e o responsável pela área de residência médica, Rafael Luzório.

As seis recentes vítimas que pediram demissão: Gastão Filho, Rafael Salgado, Rosane Cabral, Andrea Casagrande e Marília, Alzimara. Um dos motivos, além de ausência de condições de trabalho, foi a ingerência da direção que queriam impor protocolos de atendimento fora do padrão técnico, como a união de espaço das alas da UTI para pacientes comuns e infectados com o COVID-19.

COVID-19

Depois da denúncia da FOLHA DO ES, o superintendente com seus assessores supracitados decidiram separar os leitos da UTI para retirar os vestígios da irregularidade de isolamento num mesmo espaço de pessoas com suspeita e infectados confirmados do coronavírus. Mortes aconteceram nos últimas sete dias e familiares se manifestaram denunciando e ameaçando entrar na Justiça.

A interferência dos dois prepostos do padre Evaldo Ferreira na UTI, quebrando protocolo padrões do setor, foi preponderante para a demissão de vários profissionais, substituídos por outros menos experientes. Thiago Nora e Rafael Lusório são os protagonistas desse estado caótico dentro do corpo clínico com "modus operandis" inadequado e irresponsável contra os colegas que preferiram abandonar as funções.

MORTES

Em decorrência da falta de estrutura, equipamentos sucateados e ingerência anti-profissional, famílias se revoltaram pelas mortes de seus entes queridos. Seguem os links dos casos:

+ Demissão de médico da UTI e mortes na Santa de Cachoeiro-ES

+ URGENTE: Filha denuncia descaso da Santa Casa com pai idoso com COVID-19

+ Médica também pede demissão da UTI da Santa Casa e mortes rondam o hospital

O advogado Bruno Volpini, diante das suspeitas, está dando assistência jurídica a um das supostas vítimas, com familiar morto, e vai atender os demais casos em que haja vítimas por falta de atendimento da Santa Casa de Cachoeiro-ES. Ele está atendendo os casos que lhe chegam. Está estudando caso a caso.

INTERVENÇÃO

Para alguns médicos, diante do descalabro na gestão do hospital, a única solução seria uma intervenção do Governo do Estado no hospital que tem uma dívida de R$ 80 milhões. 90% da filantropia vem de recursos públicos, convênios e emendas parlamentares.

No ano passado, auditores externos confirmaram que não existe perspectiva de solucionar o caos instalado na Santa Casa e denunciaram ausência de dados para precisar outras afirmativas. Reprovaram a gestão e encontraram a chamada falta de transparência.

Já em reunião recente com o corpo clínico, assustando mais os médicos presentes, foi a informação do próprio superintendente de que a dívida só deve se estabilizar em 2021. Até lá, o hospital pode chegar ao teto de R$ 100 milhões em dívidas com fornecedores, ações trabalhistas e médicos.

VINGATIVO

Médicos traçam um perfil peculiar do superintendente, padre Evaldo Ferreira: vingativo. Segundo relatos ouvidos pela FOLHA DO ES, o padre estabeleceu uma divisão no corpo clínico. Os médicos que recebem de carteira assinada e os profissionais que prestam serviços por meio do CNPJ para fugir dos encargos e que são passíveis de dispensa a qualquer tempo.

Evaldo Ferreira mantém ao seu lado no cabresto os que recebem em dia e causa revolta nos profissionais que tem atraso entre 4 e 5 meses no sobreaviso e retenção irregular do AIH (Autorização de Internação Hospitalar), atendimento pelo SUS. Com a divisão de tratamento, o superintendente mantém sob pressão os que não possuem vínculos diretos com o hospital, ameaçando-os de substituição, como vem acontecendo.

Não se tem cálculo exato do saldo devedor com os médicos, mas o passível é imenso, tanto que o padre só está pagando, com aquele atraso, 50% do sobreaviso. Contudo, a situação está insustentável para os médicos e esse cabo de força proposto pela direção que importa na desconfiança de que mortes estejam acontecendo pelo sucateamento material e de pessoal no atendimento aos pacientes.

FALTA DE QUALIFICAÇÃO

Para piorar o caos, o padre Evaldo Ferreira quando assumiu o hospital com cerca de R$ 40 milhões em dívida não atendia a exigência do estatuto para a função: qualificado em gestão hospitalar. Ele só concluiu o curso ano passado. Em outras palavras, considerando as normas que regem o hospital, o superintendente sempre esteve de forma ilegal no cargo.

A forma de gestão dele produz estresse emocional nos médicos que passam a não acreditar mais nas suas recorrentes promessas de sanar os problemas financeiros e ofertar condições de trabalho. "Ele sempre abafa os movimentos dos médicos que questionam a falta de estrutura e competência administrativa com promessas de iminente soluções. Ninguém acredita mais. É pacifico que ele não tem qualificação para gerir a Santa Casa", disse um médico.

DESCASO

O caos está instalado, com desmanche do corpo clínico, mortes e sucateamento do hospital. Contudo, existe descaso explícito do Ministério Público, da Secretaria Estadual da Saúde, da Comissão de Saúde do Poder Legislativo e a conivência do Estado que mantém convênios para demandas além do que o hospital pode suportar, e de políticos que enviam emendas parlamentares sem exigir transparência nos gastos e sem auditar as condições dos profissionais, bem como as mortes em sucessão por esse estado de coisa.

As denúncias sobre o sucateamento do hospital e as mortes suspeitas vem acontecendo desde do ingresso do padre Evaldo Ferreira, indicado pelo Bispo Dom Dario, em janeiro de 2017. O médico Gastão Gonçalves Coelho foi um dos médicos que no ano passado bradou sobre a situação crítica da Santa Casa com revelação de mortes.


Fonte: folhadoes.com

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