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CPI da Covid: Mandetta diz que Bolsonaro queria que Anvisa alterasse bula da cloroquina

CPI da Covid: Mandetta diz que Bolsonaro queria que Anvisa alterasse bula da cloroquina

Ex-ministro, o primeiro depoente a falar na CPI, disse que uma sugestão de decreto presidencial incluiria na bula do remédio a indicação para o tratamento da Covid-19. Remédio não tem eficácia para a doença.

  Por Kimberlly Soares

  04.maio.2021 às 15:47

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou nesta terça-feira (4), na Comissão parlamentar de inquérito (CPI) da Covid, que o presidente Jair Bolsonaro queria que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alterasse a bula da cloroquina para que o medicamento fosse indicado no tratamento da Covid-19.

A cloroquina, de acordo com estudos científicos, é ineficaz contra a doença. Segundo Mandetta, o pedido para alterar a bula foi negado pelo presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

O ex-ministro foi à CPI na condição de testemunha, quando há o compromisso de dizer a verdade sob o risco de incorrer no crime de falso testemunho. O Brasil já tem mais de 408 mil mortes por Covid-19.

“Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido. Quer dizer, ele tinha esse assessoramento paralelo", disse Mandetta.

"Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, [Antonio] Barra Torres, que disse não."

Em seu depoimento, o ex-ministro disse ainda que Bolsonaro defendia o uso da cloroquina para o tratamento precoce, mesmo sem evidência científica, e que o presidente deveria ter outras fontes de informação, pois o uso do medicamento não era recomendado pelo Ministério da Saúde.

“Me lembro de o presidente sempre questionar a questão ligada à cloroquina como a válvula de tratamento precoce, embora sem evidência científica. Eu me lembro de o presidente algumas vezes falar que ele adotaria o chamado confinamento vertical, que era também algo que a gente não recomendava", afirmou.

Mandetta disse ainda que o Ministério da Saúde seguia a "cartilha da Organização Mundial de Saúde" e que, se ele tivesse adotado a teoria de que o vírus não chegaria no Brasil, teria sido uma "carnificina".

Ele também afirmou que "do Ministério da Saúde nunca houve a recomendação de coisas que não fossem da cartilha da Organização Mundial de Saúde, dessas estruturas todas".

"Era o que a gente tinha, não por sermos donos da verdade, não. Pelo contrário, nós éramos donos da dúvida, eu torcia muito para aquelas teorias de que 'ah, o vírus não vai chegar no Brasil'. Agora, se eu adotasse aquela teoria e chegasse, teria sido uma carnificina."

Em seu depoimento, o ex-ministro também falou que:

  • Bolsonaro queria que a Anvisa mudasse a bula da cloroquina, remédio ineficaz contra a Covid;
  • era "constrangedor" explicar divergências com o presidente sobre medidas de isolamento social;
  • "provavelmente" Bolsonaro se aconselhava sobre a pandemia com fontes de fora do Ministério da Saúde;
  • o governo não quis fazer campanha oficial contra a Covid;
  • a política de testagem em massa foi abandonada depois que ele deixou a pasta;
  • e a falta de unidade na ação do governo confundiu a população e teve impacto na pandemia.

Presidente duvidou de estimativa de mortos

No depoimento, Mandetta também disse que Bolsonaro teve dúvida quando apresentado, ainda no início da pandemia, a uma estimativa de 180 mil mortos até dezembro de 2020, caso o país não adotasse medidas firmes de combate ao coronavírus. Nesta terça, o Brasil já tem mais de 408 mil mortos.

"Eu levei, expliquei. 180 mil óbitos para quem tinha na época menos de mil era um número muito difícil de você fazer uma assertiva dessa. Eu acho que ali ficou dúvida, porque tinha ex-secretários de saúde, parlamentares, que falavam publicamente: 'Olha, essa doença não vai ter 2 mil mortos, essa doença vai durar de quatro a seis semanas'", afirmou o ex-ministro.

"Havia uma construção também de pessoas que falavam absolutamente o contrário. Eu acho que, naquele momento, o presidente entendeu que aquelas outras previsões poderiam ser mais apropriadas para aquele momento."

Aconselhamento de fora

Mandetta afirmou que Bolsonaro "provavelmente" tinha uma outra fonte de aconselhamento sobre a pandemia que não era o Ministério da Saúde.

“Eu acho que ele tinha uma outra, provavelmente, eu não saberia lhe dizer, mas provavelmente uma outra fonte que dava para ele. Aí, ele teria que dizer, que dava para ele, porque do Ministério da Saúde nunca houve a recomendação de coisas que não fossem da cartilha da Organização Mundial de Saúde", afirmou.

O ministro disse que viu diversas vezes o vereador Carlos Bolsonaro (Republicano-RJ) participando e fazendo anotações em reuniões ministeriais:

“Eu testemunhei várias vezes reuniões de ministros em que o filho do presidente que é vereador do Rio de Janeiro estava sentado atrás tomando as notas da reunião. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da Presidência.”

Falta de 'unidade' e de 'fala única'

O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), fez uma série de perguntas em sequência a Mandetta. Algumas delas foram: "Na sua avaliação, a postura e as ações do presidente da República contra o isolamento social tiveram impacto no agravamento da pandemia e no aumento do número de mortes? A tragédia brasileira poderia ter sido evitada? O Brasil tinha condições de enfrentar de forma melhor esta pandemia?"

Na resposta, Mandetta disse que faltou ao país ter uma "unidade" no combate à pandemia e uma "fala única" na condução da crise.

"Se a postura trouxe impacto? Sim. Você não pode, em tempos de epidemia, você tem que ter a unidade, você tem que ter a fala única. O raciocínio não é individual, esse vírus ataca a sociedade como um todo, ele ataca educação, cultura, esporte, lazer. Ele ataca tudo. Economia, emprego, microempresas. Ele ataca o sistema de saúde a ponto de derrubá-lo e aí sim o sistema de saúde não pode atender quem tem apendicite", afirmou o ex-ministro.

Para Mandetta, as falas contrárias à ciência criaram divisões dentro do país e, com isso, parte da população achou que poderia desobedecer medidas de prevenção.

"Então você tem, sim, esse impacto, porque houve uma ruptura, a medicina ficou completamente dividida. O conselho, de uma maneira, não consegue se pronunciar, as pessoas começaram a ver: 'Sim, eu posso fazer isso, eu sou leal, eu faço dessa maneira'. A tragédia, sim. O Brasil podia mais, o SUS podia mais, a gente poderia mais. Poderíamos estar vacinando mais, desde novembro do ano passado”, disse o ex-ministro.

Falta de campanha nacional

Mandetta disse também que o governo não quis fazer uma campanha nacional de comunicação contra a Covid. O ministro disse que, por isso, dava entrevistas diárias para atualizar a população sobre o avanço da pandemia.

"Aquelas entrevistas, elas só existiam porque não havia... O normal, quando você tem uma doença infecciosa, é você ter uma campanha institucional, como foi, por exemplo, a Aids. Havia uma campanha onde se falava sobre a Aids, como pega, e orientava as pessoas a usarem preservativo. Era difícil para a sociedade brasileira fazer, mas havia uma campanha oficial. Não havia como fazer uma campanha [contra a Covid], não queriam fazer uma campanha oficial”, afirmou.


Fonte: G1

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