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Presidente do BANDES é investigado por extorquir empresas

Presidente do BANDES é investigado por extorquir empresas

Munir Abud está sendo investigado como chefe de uma quadrilha de chantagistas e cobranças de propinas de empresas

  Por Jackson Rangel Vieira

  22.fevereiro.2021 às 15:00Atualizado em 22.fevereiro.2021 às 20:33

Propina de 15%, pedido de relógio de ouro e até de caminhonete de fornecedor público para o nome de Munir Abud, atual presidente do Bandes, nomeado pelo governador Renato Casagrande (PSB), que supostamente se consumaram, são objetos de investigação sigilosa do Ministério Público aberta em 2016. A FOLHADOES teve acesso ao procedimento de nº 2019.0015.9244-94 e divulga com exclusividade trechos. Veja ao final da reportagem os comprovantes desse personagem promovido e usado como ponta de lança para atender interesses escusos.

O caso apura a cobrança de propinas de empresas para liberar pagamentos públicos. O promotor Robson Sartório da Comarca de Anchieta está a frente do caso, que investiga o atual Presidente do BANDES, Munir Abud, como suposto mentor da organização criminosa no período em que ele era Procurador-Geral do município (2013-2016).

TIPIFICAÇÃO

O procedimento corre sob o nº 2019.0015.9244-94 e foi registrado de forma equivocada como corrupção eleitoral, quando na verdade se trata de crime contra a administração pública, como concussão, corrupção ativa, corrupção passiva e peculato praticados por organização criminosa. Esse erro deve ser corrigido pelo Promotor Robson Sartório.

Há até relatórios de inteligência com interceptações telefônicas e quebra de sigilo da localização dos celulares em datas específicas (triangulação das antenas). Isso comprova encontros e contatos às vésperas de licitações, pagamentos da prefeitura e até depósitos de dinheiro em espécie (propina) na conta de pessoas indicadas por Munir Abud e demais membros da organização criminosa, em tese.

A investigação segue sem desfecho desde 2016 e foi iniciada por denúncias e provas das empresas que alegam terem sido extorquidas pelo atual Presidente do BANDES.

CARGO ESTRATÉGICO

É necessário um desfecho rápido, condizente com a gravidade dos fatos, porque o investigado está em cargo estratégico do governo do Espírito Santo, como Presidente do BANDES, onde se decidem empréstimos de dinheiro público. É um grande volume de recursos do contribuinte que estão sob controle de uma pessoa sob fortes suspeitas.

É necessário reputação ilibada para ocupar esse cargo, um nome portanto acima de quaisquer suspeitas. Por isso é que a lei exige a aprovação do Banco Central, após a indicação pelo Governador do Estado.

Não se trata de presunção de inocência ou simplesmente não ser condenado (ainda): a natureza da função exige que o indicado não ostente suspeitas nem questionamentos em torno de sua vida pregressa, sobretudo quando cuidou de negócios públicos. O que se vê é justamente o contrário.

Assim como um gerente de Banco privado, um juiz, um promotor, um pastor/padre, entre outros empregos que protegem interesses sensíveis e exigem a plena confiança pública, é imposto um filtro ético muito mais rigoroso. Uma vitrine sem manchas.

Ou o leitor aceitaria que seu dinheiro ficasse em um banco cujo nome do Presidente estivesse em uma investigação dessa natureza, idêntica à de Munir Abud? Ou ter um processo julgado por um juiz na mesma condição, com tantas suspeitas em torno de seu nome? Ou ser membro de uma igreja em que o pastor/padre fosse investigado por pedofilia ou desvios de dinheiro do dízimo?

ANTECEDENTES NO GOVERNO

É bom relembrar que no início do atual Governo, o então Presidente do BANESTES Vasco Cunha Gonçalves foi preso pela operação "Circus Maximus" (circo máximo) da Polícia Federal de Brasília-DF, sendo o primeiro caso da história do Espírito Santo um evento nesse sentido. O ex-presidente foi uma indicação pessoal do Governador Renato Casagrande (PSB), assim como é Munir Abud.

Nesse contexto, a FOLHADOES vai acionar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e o Banco Central para terem ciência da investigação contra o atual Presidente do BANDES e tomarem as providências cabíveis. A Assembleia Legislativa e a Promotoria de Anchieta (Promotor Robson Sartório) também serão demandados.

*Detalhes da investigação sigilosa

Munir Abud entrou no cargo de Procurador Geral da Prefeitura de Anchieta com um veículo da marca "Agile", de cor verde, financiado. Depois evoluiu para uma Hilux quitada, após a adesão de uma ata da Prefeitura de São Mateus para palcos e tendas em 2016. A caminhonete, no valor de R$ 200 mil reais, era de São Mateus, com a placa PPL 1000. Depois, o atual Presidente do BANDES transferiu a placa para Guarapari, cidade em que reside.

O escárnio é tamanho que Munir Abud, não satisfeito com a Toyota HILUX porque tinha 1000 KM rodados, trocou em uma outra HILUX, idêntica, no mesmo ano, só que 0 KM. Achou que as pessoas não iriam perceber, por ser da mesma cor e modelo.

O valor da segunda TOYOTA HILUX que estava no documento era muito maior do que o valor da primeira, apesar de idêntica. Isso revela que foi inserido um valor menor no documento da anterior com placa de São Mateus.

Ou seja, uma suposta falsificação. Com qual motivo? Simples, para explicar como um procurador geral de município com salário de R$ 8 mil reais brutos pode ter comprado uma caminhonete de luxo no valor de R$ 200 mil reais, quitada.

De qualquer forma, falsificando ou não o valor do documento do veículo, o atual Presidente do BANDES não tinha lastro financeiro para esse padrão de vida, porque ganhava, como já destacado, R$ 8 mil reais brutos. Trecho da investigação também fala que Munir ostenta padrão de vida incompatível com sua renda, com hábitos caros.

Há suspeitas de que Munir Abud adquiriu ainda conjunto de salas em Guarapari, casa em Domingos Martins, terrenos e um audi A4, após a segunda Toyota HILUX. Um audi A4 é de fato seu carro atual hoje. Cabe ao Ministério Público apurar e esclarecer esse cenário.

Outro fato a se destacar sobre a presença de Munir Abud nos arranjos do Governo do Estado, é que sua esposa e beneficiária Mirian Porto do Sacramento, sócia em seu escritório de advocacia com a irmã Mariane Porto, hoje ocupa o cargo em comissão de Subsecretária de Integridade da Secretaria de Controle e Transparência (SECONT). Essa é a posição que recebe e filtra todas as denúncias de corrupção dentro do Governo do Estado, dando início a procedimentos de controle interno ou simplesmente determinando arquivamentos.

O escritório de Munir cuida das causas pessoais dos cardeais comissionados do PSB, inclusive do Governador Renato Casagrande (PSB).

Chama a atenção o número elevado de pessoas sob fortes suspeita, em áreas estratégicas do Governo, indicadas por Casagrande. Suspeitas que envolvem malversação ou desvio de dinheiro público, em formato de organização criminosa. O caso da prisão do ex-presidente do BANESTES é uma amostragem desse sistema que a FOLHADOES tem denunciado através de seu jornalismo investigativo.

Aguardem, a qualquer momento, mais reportagens exclusivas sobre supostos mal feitos e corrupção dentro do Governo do Estado.


Veja trechos da investigação contra Munir Abud:



Fonte: Folha do ES

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