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'Dinheiro do auxílio dura só uma semana', diz mãe de quatro filhos

'Dinheiro do auxílio dura só uma semana',  diz mãe de quatro filhos

Eles estão dentro do universo de 33 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar no país.

  Por redação - HF

  14.setembro.2022 às 11:12Atualizado em 14.setembro.2022 às 11:18

No Rio de Janeiro, a fome tem cara: são pessoas negras, jovens, de baixa escolaridade, desempregadas, com filhos. Em uma ocupação na cidade — que terá o nome preservado —, o EXTRA ouviu relatos de famílias que, mesmo com o Auxílio Brasil de R$ 600, enfrentam dificuldade para conseguir ter mais de uma refeição por dia. Eles estão dentro do universo de 33 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar no país.

A situação na ocupação, onde residem 270 pessoas, sendo grande parte formada por crianças, carece de infraestrutura básica. Os banheiros são coletivos. O cômodo que abriga móveis quebrados recolhidos das ruas e colchões antigos — há quem não tenha onde dormir, nem como cozinhar — vira uma cozinha improvisada, onde não existe pia.

Luana Stefany da Silva, de 20 anos, mãe de dois filhos — Antônio Carlos, de 3 anos, e Tauane, de 1 —, mora no último andar habitável do prédio. A construção tem nove andares, mas somente até o 7º são ocupados; os demais oferecem risco.

Luana de Paula Silva e o marido, Maik do Nascimento, com os dois filhos em ocupação no Rio: refeição é angu com feijão

Luana de Paula Silva e o marido, Maik do Nascimento, com os dois filhos em ocupação no Rio: refeição é angu com feijão

'Fogão' improvisado com madeira

O marido dela, Maik do Nascimento, 28 anos, trabalha como pedreiro, mas tem tido dificuldade para conseguir emprego e faz um bico ali, outro acolá, para arrumar um dinheiro para levar para casa.

— Nós moramos há dois meses na ocupação, não recebemos o Auxílio Brasil e dependemos da ajuda de terceiros para ter o que comer — desabafa Luana, que cozinha em um "fogão" improvisado com madeiras. Para acender o fogo utiliza álcool.

Ela explica que fez a inscrição no Cadastro Único (CadÚnico), porta de entrada de programas assistenciais do governo federal, no último dia 8 e está torcendo para receber o Auxílio Brasil.

— Hoje nós comemos angu e feijão, era o que tinha. Sempre vamos atrás de carreatas (pessoas que doam alimentação pelo Centro do Rio), mas nem sempre tem — lamenta.

Bicos para levar comida para casa

Priscila Nunes de Araújo, 31 anos, mãe de quatro filhos, conta que o dinheiro do programa de transferência de renda dura apenas uma semana.

— O dinheiro do auxílio só dá uma semana. Vou ao mercado e compro somente o básico do básico. Carne já não sei mais o que é há muito tempo. Quando dá comemos ovo, salsicha, macarrão e feijão. As crianças bebem leite, mas tem vezes que o dinheiro não dá — lamenta Priscila, que trabalhava como faxineira na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, mas perdeu o trabalho com a pandemia.

O marido, Marcelo Lourenço, 31 anos, cata material para fazer reciclagem e faz bicos vendendo água nas ruas para complementar a baixa renda da família. Das crianças, Noemi (7 anos) e Enzo (4 anos) estão matriculados em uma escola pública e têm refeições diárias. Já Ana Flávia, de 3 anos, e Micaely, de 1 aninho, se alimentam com o que tem em casa.

— Se não fossem doações de cesta básica e quentinhas, a gente ficaria sem ter como comer — diz Priscila.

Michele Cruz, 36 anos, tem dois filhos (Iago, de 19, e Rayca, de 15) e seis netos. Todos moram na mesma ocupação. Ela recebe o Auxílio Brasil e se vira para garantir comida para todo mundo:

– Na minha época, quando era criança, a gente passava dificuldade, mas não era tanta. Hoje em dia recebo os R$ 600 e não dá pra comprar quase nada, tudo está muito caro no supermercado. Imagina a quantidade de leite para seis crianças? O dinheiro não dá – afirma Michele.

Doações e venda de doces

Carla Aguiar tem 35 anos, é mãe solteira de quatro filhos, sendo um maior de idade. Dois menores, Felipe e Daniel, 14 e 12 anos, respectivamente, estão matriculados na escola. O rapaz, Marcio, de 16, está trocando de colégio, conta a mãe.

— Se não fossem as doações e minha venda de doces a gente estaria perdido. Ando tudo por aí para vender as coisas, só volto quando tenho pelo menos o dinheiro da comida das crianças — diz ela.

Milena Gregório, tem apenas 24 anos, e dois filhos: Victor Hugo (4) e Aylla (1). É mãe solteira e vive em condições precárias. No cômodo onde moram há apenas um colchão, um fogareiro, e um pano na janela.

As roupas estavam amontoadas em cadeiras. Avessa a tirar foto, ela conta que deu entrada no Auxílio Brasil, mas demorou mais de um ano para receber. Hoje, tinha somente macarrão para alimentar os filhos.

— Recebo o auxílio, mas o vale-gás não, apesar de o governo dizer que tenho direito — reclama.


Fonte: Jornal extra

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