Guilherme Sobota - 28/12/2016 09h56
Livro conta a reveladora história da gordura no Brasil
Obra da historiadora Denise Bernuzzi de Sant?anna narra os hábitos alimentares nada 'corretos' dos brasileiros
Se serve de consolo para os que se sentem um pouco acima do peso, fora dos padrões considerados ideais ou saudáveis, o conceito de “corpo perfeito” não é absoluto, nem no tempo nem no espaço. A depender da época ou do lugar de onde se fala, aquilo que hoje se considera inaceitável, como barriga saliente e consumo de gordura, já foi visto como sintoma de boa saúde e alimentação adequada. Assim, como mostra a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’anna em seu precioso livro Gordos, Magros e Obesos: uma história do peso no Brasil, a forma natural como julgamos corpos considerados obesos é na verdade fruto de longa, controversa e ainda inacabada disputa em variados níveis – econômico, político, social e cultural.
Isso não significa, contudo, que a sociedade não fosse implacável também com os glutões. Ao mesmo tempo em que os considerava saudáveis e endinheirados, num país em que a fome ainda era uma realidade em vários lugares, a imprensa – principal fonte do livro – tratava de promovê-los à categoria de fenômeno circense quando seu apetite era, digamos, pantagruélico. Numa época em que não se perdia uma boa piada, mesmo à custa das extravagâncias alheias, os obesos eram alvo preferencial do humor de revistas e jornais. Mas também o eram os muito magros, geralmente colocados lado a lado com os gordos, para acentuar a disparidade entre ambos e duplicar o resultado humorístico. “Por toda parte, admirava-se um estômago capaz de receber quantidades colossais de alimento, tal como era invejável possuir excelente apetite e, sobretudo, poder saciá-lo”, escreve Denise. Além disso, a literatura erótica valorizava as mulheres gordas: “A luxúria preferia corpos arredondados e ricos em curvas”. Para disfarçar a magreza, mulheres recorriam a enchimento para seios e nádegas, vendido em lojas especializadas.
 
Tal ambiguidade com que a obesidade foi tratada desde sempre no Brasil contemporâneo é a linha mestra da pesquisa de Denise, pois é essencial para compreender que o padrão estético pretende ser uma ditadura do “peso ideal”, contra a qual sempre haverá rebeldes — vistos ora como uma afronta à beleza e à saúde, ora como heróis da resistência.
 
Se no passado os obesos eram considerados saudáveis, embora dignos de piada, hoje os gordos são relacionados a doenças, mas também a bom humor e, principalmente, à liberdade, pois, de acordo com a imagem que se faz deles, sentem-se à vontade para comer o que bem entendem, sem se preocupar com a balança ou com o que vão dizer deles – o sonho secreto de muitos dos que lutam contra a própria natureza para se manter na linha. Enquanto certa literatura psicanalítica vincula obesidade a carência afetiva e problemas emocionais, outra interpretação os considera indivíduos bem resolvidos, indiferentes às regras do que se considera “boa alimentação” – de resto um conceito bastante subjetivo. Como mostra o excelente livro de Denise, a questão da obesidade suscita honesta e pertinente preocupação médica, mas, ao mesmo tempo, constitui pretexto para a recorrente luta política pelo controle dos corpos.


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